sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre 'a ponte' e a história de Maria, quando ela não mais quis ir com as outras.


E não é que sentisse-se melhor do que os outros, não! Isto jamais lhe ocorrera. A questão toda era a incapacidade de ser compreendido, inclusive pelo senso comum que enxergava de si mesmo, que jamais permitir-lhe-ia entender-se. Todos ali, tentando desesperadamente encaixar-se, como se em um quebra-cabeças as peças adjacentes devessem ser jogadas fora... Marchavam, como em tempos de guerra, onde a própria marcha seria uma guerra mortal, se preciso contra si mesmos, para que pudessem ser reconhecidos como soldados do having fun.

Fugi ao exército, perdoem-me! 'Oh, eu também pensava assim e veja bem, estava errado!'- disseram-me. Assim como? pergunto. Jamais expliquei, aliás, pré-conceberam-me, como sempre o fazem. E ainda acusam-me: "Sente-se melhor do que todos, é isto!"; "Veja bem, sei que estou errada e sei que isto me destrói, mas olhe, faço isso conscientemente!" - outrora também me disseram. Seria isto suicídio, então?! Não, são adultos, ah e, bem, estão em uma nice. Lógica estranha, já que para mim apenas reitera a ideia do suicídio.

E ainda que músicas ou leituras ou comédias ou dramas, não mais me bastem, bem, ainda assim eu não escolheria jogar-me de uma ponte, como todos estavam (estão) fazendo, eu saberia que a ponte continuaria. Por Deus, eu tento convencer-me dia após dia sobre a possibilidade de continuação da ponte, que todos dizem-me inexistente, sendo que nem mesmo eles a viram. Seria como desmentir os céus! E por que tentam me convencer sobre aquilo que nem eles mesmos tem alguma certeza? Deixem-me acreditar no que me fizer bem. ponto.

Finalmente, perguntando-me certa vez sobre os motivos da busca incessante por meu eu 'original', lembrei-me de uma história, lida na escola, em aulas de redação da professora Estela (estrela), quando ainda criança: 'Maria Vai com As Outras', de Sylvia Orthof; onde a personagem, a ovelha Maria, seguia o comportamento de todas aquelas do seu clã, reproduzindo ações detestáveis, as quais não lhe traziam orgulho ou qualquer bem. Ao fim, quando todas as ovelhas começam a pular de um penhasco e se machucam, Maria decide pela independência, sendo livre, ao que memoro a frase salvadora: ' Então Maria gritou: mé! e decidiu ir para onde caminhar seu pé.' . Sim Maria, eu decidi também, ainda naquele dia.

Irei para onde caminhar meu pé, peço lhes apenas o respeito. Grato.




segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Agora sei que terei sorte no amor.


Pois que a freira estava com os dedos todos envoltos em esparadrapo, ao que me confidenciou: fruto de uma suposta alergia nos ossos. - ‘Pois você consegue acreditar que o médico ainda queria operar-me os olhos com catarata?! Ainda mais com esta alergia. ’ – e eu que fiquei sem entender a relação entre uma coisa e outra, os ossos e os olhos. E ela que quase não me enxergava. Era a irmã Lorença - ‘poucas têm esse nome’, demonstrando- se - me única. E eu que há alguns minutos lia 'O Príncipe', de Maquiavel, dedicado a Lorenzzo. Fiz questão de lhe contar a coincidência!

Lorença dedicara toda a sua vida ao convento, desde os 19. Foram 67 anos, de modo que agora possuía 86, derrubando óculos e botões no chão – era a alergia que afetava os dedos. E falava tão baixinho que eu sempre precisava tirar a alma do corpo para poder ouvi-la. A minha vontade de ‘puxar conversa’ concretizara-se justamente quando ela derrubou a lente de um óculos antigo (suponho que fosse desastrada além do problema nos ossos)... Conversa vai, conversa vem, estávamos em uma rodoviária e eu me preparava para o feriado e a volta ao lar, cansado que estava da cidade grande e das mazelas do mundo. Ela, toda indignada, além dos disparates do médico, que queria operar-lhe, desacreditava de uma informação sobre os ônibus que certa atendente lhe dera: - ‘Pois você acredita que ela disse não haver vagas nos ônibus até o dia 18? Isso nunca aconteceu, esses ônibus foram sempre vazios, jamais se encheriam do nada!’. Estive incerto novamente sobre o tempo em que ela não utilizava daqueles ônibus. Viera do Espírito Santo (uma coincidência metafórica) e fora viver em Santa Catarina, ‘uma viagem que durou 11 dias’. Entendi como uma procissão.

Disse-lhe que eu procurava acreditar nas pessoas e não questioná-las muito, assim como não questionamos o Deus. Ela parou, pensativa: - ‘cada um do seu modo!’. Contou-me então de um fato que considerava estranho: sua vontade de nunca casar. Nunca quis casar aos 19, gostava dos rapazes, mas nunca quis casar, então quis ser freira. Houve um rapaz: ‘porque naquele tempo as coisas eram diferentes, ele ter falado com meu pai já era meio caminho andado’; ‘eu não poderia dizer não, se ele quisesse, que fosse lá em casa, mas eu não queria conversar, ficava mesmo era jogando baralho com meus irmãos mais velhos!’. Lorença partiu o coração do moço e foi embora de casa. Passaram-se 67 anos desde então.

A idade em que ela não quis casar e coincidentemente (novamente) a minha própria idade, onde procuro um amor. Confidenciei-lhe, inclusive minha desesperança, de nunca encontrar alguém; de querer ter filhos; ter casa; casar aos 30; amar e amar e amar. Ela achou bonito: ‘cada um do seu modo!’. Perguntou meu nome: ‘Vou rezar, eu sempre rezo, é minha obrigação!’. Logo em seguida disse que me esqueceria o nome: ‘mas só de olhar sua feição, sim, me lembrarei do seu rosto e o Pai, sim, o Pai saberá, e eu sei que dará tudo certo!’. Então agora eu sei que terei sorte no amor!

Vou rezar também por ela! Ainda que não por costume ou obrigação, vou rezar para que sua ‘alergia nos ossos' sare e para que ela encontre médicos ‘mais sensatos’ (veja só!); também para que seja muito feliz, e para que não se esqueça de pedir por mim e por meu amor, que não sei onde está. Mas eu sei que ela vai se lembrar de mim: olhou fundo nos meus olhos, ainda que pouco enxergasse.

domingo, 24 de julho de 2011

Balada dos garotos afogados.


Algumas vezes eles se afogam sim, e é incrível como jamais conseguem voltar. O beijo sufocante da morte os leva, as pálpebras cerradas, e a dor continua restante. Muita dor. Isto é injusto, deveria ser acordado, anteriormente ao trato, que quando não mais vivessem a dor deveria cessar, proporcionalmente aos batimentos. Seria o mesmo acordo da rosa em botão que leva consigo o perfume.

Mas estes garotos continuam flutuantes - o coração de suas mães transborda e seus pais perdem o prumo. A dor continuará; é nauseante, é nauseante. Afogaram-se, mágoa, dor. Como os garotos sofreram, como! Tudo continua escuro, como um barco na ressaca, sem rumo em uma noite escura. Isto é errado. Os garotos deveriam descansar.

Ainda não se sabe muito bem e nem nunca se saberá; são esperanças eternas, cortadas na raiz, de maneira silenciosa...

Não há som, não há ar, nem há luz. Não existirá o amanhã, apenas a balada dos garotos afogados, flutuantes...

Deus os salve.

God save them.

domingo, 19 de junho de 2011

Um velório.


Colocaram-na sentada em frente ao caixão da filha morta. Estava com meia-calça até os joelhos, uma bengala na mão direita e os olhos, por trás dos óculos, pousados sobre nada. Era uma velhinha conhecida na cidade, a filha então, conhecidíssima, pois que o cemitério-velho estava cheio. Os habitantes, em sua maioria, com as melhores roupas e sapatos. Era inverno.

Achava tudo lindo, as flores, o local, as pessoas... Flores são sempre bonitas, era agradável ver tantas reunidas. Não compreendia, já fazia algum tempo que a mente repousava na infância - chamava sempre pela mãe, que nunca comparecia... – Não notara a filha morta, nem se lembrava mais de sua existência; via as pessoas todas chorando, sim, mas a única compreensão é de que talvez não estivessem encontrando as próprias mães também, algo que lhe parecia comum nos últimos tempos.

Conversas paralelas sobre nada, comuns, recheavam o lugar, presença completa dos cidadãos ilustremente preocupados com o próprio umbigo, via-se pelos sapatos 'bordadíssimos', era inverno e um velório seria um lugar interessante para mostrá-los...

O enterro saía, certa marcha o acompanhava. Levantaram a velhinha e a levaram dali, era hora de ir embora. No chão, na saída, sobraram alguns grampos de cabelo, grampos comumente usados pelas senhorinhas, tantas outras que também haviam perdido as mães, mas que choravam por outros motivos – não lhes era permitido chamar pelas mães, seria loucura...

E a velhinha, que nem percebeu, continuou achando tudo muito bonito. Talvez algum dia se lembrasse da filha, talvez não, sua única preocupação agora era achar a mãe.

domingo, 8 de maio de 2011

Control yourself.


'Take only what you need from them'.

Que a gente quer ser sempre o melhor da gente, o melhor do que nossas mãos poderiam um dia fazer. Nos alongarmos mais do que os braços e pontas das unhas permitem-se: crescer, crescerrrrr! Então você se alonga e estrala todo - advertências corporais. O mesmo da personalidade, do coração que adoece e entristece, do cérebro que 'incha' e nem sabe mais para que direção comandar o corpo. Enchemo-nos de teorias e arbitrariedades para poder afirmar positivamente 'Tenho noção do próximo passo a ser dado', mas esticar a perna, AH, você nunca estica.

Sempre critiquei os que nunca pensavam sobre, e que apenas respiravam. Está certo que eles sempre machucam os outros, de modos parvos, mas olhe só: também machuco. E machuco-me, o que na meu egoísmo vital dói demais. Pois que fechei os olhos e me arremessei, estou na vida desde então, fazendo o máximo do que jamais poderia. Sendo-me, ainda que impossibilitado por mim mesmo o tempo todo. AH, a ficção. Pois que 'ficcionamo-nos' até o desconhecimento.

Ainda não devo fechar meu livro, terminarei-o no meu para sempre. Apenas quando ele chegar e quando eu não mais esperar por 'minha própria vinda'. Quando for possível tornar-me eu que não seja outro, mas o mim mesmo.

BRAINSTORM, so I'm so sorry.




sábado, 16 de abril de 2011

Seria um anjo se pudesse.


A sensação era a mesma da invasão da agulha enquanto tirava sangue, as enfermeiras perfuravam certeiras, a diferença é que era permissivo. Os outros não se importavam tanto antes de invadir-lhe, eram incisivos mesmo - não lhe permitiam que dissesse não. Era sempre sim, sim, sim, SIM. Quase que em obrigação era pressuposto que ele havia aceitado sua condição, condição desconhecida dele, mas que os outros sempre reconheciam.

Pois que sua inocência era mentira: 'ninguém pode ser deste modo!', pois que ele era ninguém, sempre fora, ainda que não lhe permitissem. Era tão belo como um não em uma sala positiva, ainda contrariando o poeta e a ordem, como sempre, na rebeldia que não era heróica, era vilã. Se ao menos fosse vilão por inteiro, ainda existiria certa cota de perdão, mas também não lhe era permitido - ' Imagine só?! Idiotinha, mal?! Pudera!'. Acabava sendo nada, como sempre.

Se quer saber, a culpa também era dele. Não se bastava, nunca. Ainda que obtivesse a maior sorte do mundo, do mundo, 'Oh, mas ainda existiria o azar!' - então era incompleto. Os que não se bastam se cavam, se corroem. 'Ao menos se fosse como os outros!' - sempre se dizia, sempre lhe diziam. Estes outros intermináveis. Lhe restava certa confiança no futuro, era bem verdade, confiança de que um dia iria acontecer, sim, acontecer. Não eram poucas as vezes em que vira isso, as pessoas 'acontecem' o tempo todo... Mas ainda era parte do 'não se bastar', e talvez se corroesse novamente caso acontecesse de um dia acontecer.

Tomara Deus, algum dia os 'meio-termo' sejam permitidos, os que não escolhem, os que não germinam, os que 'caem pela metade'. Seria um anjo se pudesse, o anjo era o mínimo, era a essência. Essência não se corrói, então seria completo, pleno. Seria um anjo se pudesse.


sábado, 26 de março de 2011

Blessed be.


Foto: Louise-Bourgeois fotografada por Annie-Leibovitz.

A borboleta confundia-se nos cabelos brancos, branco puríssimo que era, como que dizendo ‘Deus te abençoe!’... E como ele tem abençoado, tem abençoado a velhinha por quase oitenta anos, permitindo que continue andando, mesmo com pernas quase inexistentes, magérrima que é.

Ia ela se curvando, na saída de um açougue, fechando-se como uma flor em botão, corcunda que era, ‘inflorescendo’, e foi então que a borboleta reconhecera-a, abençoando-lhe. Andando no processo contrário da flor ela caminha para uma eternidade desconhecida, ou talvez, inexistente. Mas nós sabemos o que lhe ocorreria: faria parte da terra, como outras flores. E talvez por isso se fechasse em botão.

A pureza do branco, da borboleta branca, do cabelo branco... Todo um preparo para o futuro certo, certamente. A benção divina ficaria então para o próximo florescimento - o onisciente.

Mas ela estava perdendo o perfume, ou melhor, guardando-o. O cheiro dos cemitérios, vou segredar-lhes, é o dos botões que ainda irão brotar, são perfumes guardados por séculos. Existem muitas borboletas por lá.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Está um pouco nublado.




‘Eu disse a ele que me sentia uma garota cega na janela. Acho que eu sempre vou querer vê-lo de longe, mas eu não vou poder olhar porque isso me doeria muito. E eu sempre vou desejar o melhor a ele, e eu não pretendo amá-lo para sempre, mas por enquanto eu o amo, e por enquanto eu observo de longe sem ver.' K.T.

É que, bem, eu nem mesmo queria, e disse isso a ele... Seria tão mais fácil culpá-lo pela insistência, do modo como me culpo agora por ter cedido. Estava vazia, incompleta, sim, mas norteada, direcionada; ele não tinha nada que...

O que acontece é que agora não adianta mais, estou cega e presa. Presa dentro dos limites possíveis que não me permitem agir e comandar de acordo com a minha vontade; e ainda que ele fosse mal, que fosse hipócrita - eu poderia mandar prendê-lo. Mas ele não é ! O que torna todo o mal já feito em erros e ‘impretensões’ de minha parte. Sinto dizer-lhe, mas mulheres jamais podem ser culpadas.

Por Deus, eu havia me exorcizado tantas vezes por pecados alheios que nem me é possível contabilizá-los novamente; houve tanta dor lasciva e mal formada de amor adolescente, porém, agora eu sou mulher e então dói mais. Dói como fracasso pessoal e perda financeira. Coração não se refaz assim do zero, então vou lhe contar a história da menina que morava dentro dele, quem sabe assim acabo reconstruindo-o:

‘Ela havia nascido um pouco cega, não havia muito espaço para o próprio crescimento, o lugar era bastante apertado e ao invés de se expandir, regredia cada vez mais, se apertando em dor de medo, e a menina ia sofrendo. Como era pequenina, na primeira expansão já se foi correndo, ingênua, ia crescendo e enxergando cada vez mais – os olhos, mal acostumados, iam míopes e ela acabou sofrendo grande queda, machucou-se, doeu muito. O lugar de nascimento regrediu um pouco, mas não havia muito que fazer: a primeira e grande expansão é para sempre, algumas paredes se quebram, sempre dói, mas é para sempre. Então, a menina pequenina se aquietou, viveu sua nova vida, sob as perspectivas de sua nova expansão, reconstruindo e construindo tudo aos poucos, focada. Foco também incide em um pouco de cegueira, é como olhar sem ver, deste modo, porém, as coisas poderiam continuar, o que se encaixa dentro do conceito de bom e permitido.

Permissão?! Não, nunca houve permissão, esse lugar onde a pequenina morava vivia meio aberto e meio fechado, em uma convulsão de sístoles e diástoles, ao que ela sobrevivia... A última vez que aconteceu tornou as coisas piores, ela, já calejada, correu com maior obstinação, no puro risco de se perder, mas coexistindo com a fé, o que por si só era a segurança. Correu tanto, mas por pouco tempo, dessa vez nem caiu, estancaram-na; não lhe deixaram continuar o caminho que seus pés queriam traçar. O caminho veio e ela o havia escolhido, estava pronta, mas desta vez não lhe permitiram.

Ela voltou sozinha, desta vez, vagarosamente, com olhar baixo, para o chão. As janelas do lugar se embaçaram todas, não havia como comprimir. Ela queria continuar olhando para o caminho que havia escolhido que não mais lhe pertencia, então ela não poderia enxergar. Nunca podemos enxergar aquilo que não é nosso, os olhos querem capturar, como fotografias, e fica como algo inexistente, esperança esfumaçada. Então a menina ficou cega de vez, cega de ‘inesperança’, cega de não pertencer. Continua vivendo, sim, não se sabe até quando... Ela guardou o caminho em algum lugar, mesmo sem enxergá-lo, da próxima vez será necessário desmatar muito mais e gerar uma nova trilha, a cada vez ela aprende a enxergar novamente, mesmo cega, enxerga com seu próprio corpo e vontade, afinal, depois de algumas vezes não precisamos mais dos olhos.’

- Poderia parar no próximo ponto, por favor? Está um pouco nublado, daqui eu não posso enxergar muito bem...

sábado, 1 de janeiro de 2011

Mme. Okada



E mesmo as borboletas mais deslumbrantes perdem o viço. Mme. Okada era uma artista, de mãos pequenas que resultavam em vestidos maravilhosos, de uma perfeita compostura, ao menos do modo como minha mãe a conheceu.

Não sei explicar muito bem o que vi: era apenas uma senhora levemente curvada com os cabelos mal pintados. Realidades e visões muito distintas se cruzaram: a expectativa e espanto de minha mãe com o meu olhar ao imperceptível. Mme. Okada era uma artista que envelheceu.

Artistas envelhecidos são algo dolorido, a arte rouba-lhes a juventude e não lhes devolve, por mais que fabriquem beleza a aparência geral é de uma casa sempre vazia. Okada não me demonstrou nada, ao que os olhos de minha mãe brilharam: ela havia sido responsável pelo deslumbre da 'boa sociedade' da década de 60, Okada vestia a beleza.

Talvez ela não tenha sido uma lagarta, artistas costumam pular etapas, ao que me parece ela possuía nas mãos o mais fino corte, imprescindível, produzindo a arte com simples panos e sem maior grau de instrução. Foram outras épocas, o talento precisava ser dominado e então era reconhecido, não havia necessidade de agradar ao comercial, apenas acontecia-se. É uma pena não ter conseguido encontrar essa expectativa na velha sra. Okada.

Ao saber a história, que nem me fora contada [foram apenas palavras e sensações soltas], minha vontade era voltar correndo e chacoalha-la, fazê-la levantar vôo novamente, transparecer a artista dos outros tempos. Talvez ela estivesse apenas cansada, o cansaço ainda iria levá-la... Mme. Okada caminhava por uma rua cheia de lojas, com roupas de fábricas e confecções, ninguém a conhecia, nunca haviam ouvido falar. Ela fora vencida, o talento e a irreverência, a originalidade, haviam sido vencidos por araras cheias de peças iguais, sem trato, industriais. Os vestidos de anteontem foram corroídos também, junto com a velha senhora anônima.

Queria que Mme. Okada voasse, mesmo que com asas de tecido, que mostrasse o seu valor. Que ensinasse para aquela gente o que era talento e o corte fino, e arte dos tecidos, mas ela já estava muito cansada, continuou caminhando, levemente curvada, japonesa e anônima, como um sorriso no Japão.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Bolo de festa


Ela chegou em casa e descalçou os sapatos. Foi até o aparelho de som e colocou o Cd que nunca ouvia - era triste demais. Deitou-se na cama e fechou os olhos, brevemente...

As pálpebras tornaram-se pétalas, ela começou a flutuar em um rio cristalino de planície, não havia som algum... Passara muito tempo flutuando... Quando, de repente, afundou, sem se afogar, naquele desespero resignado de perder-se; sem dor, indo mais e mais fundo.
O Cd acabou.

Levantou-se, mecânica - não era dor o que sentia, era uma espécie de constrangimento por não pertencer - não desejava se libertar, a grande verdade é que não era direito seu. Não era importante, e para os anônimos o destino é sempre comum.

Caminhou pela casa em passos leves, sem intensão. A crueldade só se enquadra quando existe aflição e dor; dor não havia. Piscou vagarosamente e procurou não pensar. Ligou o Cd novamente e foi para a cozinha - ladrilhos da cor laranja que ela mesma escolhera para dar vida ao ambiente - resolveu preparar um bolo, branco, de festa.

Preparou-o, sem ímpeto algum de cozinheira, por mais mãe e esposa que fosse. Colocara o mínimo de açúcar possível, somente o cheiro deveria ser doce. Continuava mecânica. Eram 16 horas e 5 minutos.

Regou as plantas e abriu as portas da varanda - fora o apartamento dos sonhos, quitado no último ano - entrava uma brisa. Sentiu frio.

O Cd terminou novamente, ela desligou o som. O bolo estava assado. Decorou-o e o colocou no refrigerador. Assustou-se um pouco, nunca pertencera à solidão, mas naquele momento era o seu único pertence. Ela se sentiu ausente em sua própria casa, respirava exausta. Apenas o silêncio era bom, foram 40 anos e ela não havia percebido isso.

Entrou no quarto, os chinelos, despreocupadamente, estavam virados para baixo. Adormeceu no silêncio - um longo tempo...

Abriu os olhos, a claridade lhe cegou temporariamente. Ouviu-se um apito agudo e pausado, que manteve certa constante. As pálpebras tornaram-se pétalas e ela submergiu profundamente.

Nunca mais acordou, o bolo de festa nunca foi comido.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Janelas.




Ela acreditava que os outros deveriam olhar mais pela janela, sem se perguntar e nem saber porquê. A ideia era consistente e ela pregava aquilo como se tratasse de uma religião. E para dizer bem, era verdade, acabava consistindo em uma revolução de valores, tal qual as religiões são.

Janelas sempre possibilitam atividades diversas: desde a limpeza dos vidros até o suicídio. Chegara mesmo a ouvir sobre santas que apareceram em janelas - o que reforçava sua tese. São mais interessantes do que portas, por exemplo, até por não exigirem permissão, afinal, não existe a necessidade caseira de se sair ou entrar, pode-se participar de janelas sem pertencê-las ou pertencer a elas.

Detestava defenestradores; achava um crime que se atirassem coisas pelas janelas, se bem que tivesse atirado flores algumas vezes... Mas isso era divertido, então nem contava. Jogar lixo é que era ruim, era maldade que muita gente fazia.

Vivia pensando sobre a origem etimológica da palavra - JANELA - mas não procurava em dicionários, eram frustrantes e estragavam a linha do pensamento. Até que depois de muito pensar chegou à uma conclusão que lhe pareceu lógica: Janela = jante com ela, ou nela. E ainda que a ideia tivesse vindo de um comercial antigo da Coca-Cola era irrefutável, afinal, bons fregueses sempre escolhem mesas na janela e família que é família sempre faz suas refeições perto de uma.

Seu grande sonho era morar em uma casa onde existissem apenas janelas, para sentir-se liberta e encontrar seu lugar no mundo... ------------ sua mãe já lhe cortou a ideia:

- Meninaaaa! Pare de besteiras e vá dormir logo! E feche esta janela, está frio!

Acontece que criança só se aquieta momentaneamente, pois continua remoendo o pensamento, e a menina guardou o sonho. Ela reabriria a janela no dia seguinte, e nos dias seguintes até o fim dos tempos em que se pudessem abrir janelas. Novamente, novamente e novamente.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sobre os anjos que não possuem asas.

Então eu estava esperando que o ônibus passasse. Esperar um ônibus exige resignação intensa, é uma espécie de destino passivo. Ainda faltava uma hora e como era um terminal sentei-me em um banco. Velhinhos gostam de conversar.

Deve ter começado com uma pergunta inóqua, algo sobre o tempo ou sobre a demora dos ônibus... E ela começou a me contar parte de sua vida, chamava-se Ermelinda. Na primeira pausa já anunciei meu espanto: ela possuía olhos com cores diferentes, um era azul e o outro cor de mel. Das características exóticas que anjos precisam ter para que saibamos que são anjos.

Conversamos ainda algum tempo, ela me contou sobre sua família, sobre sua neta que tanto amava, sobre sua filha, sobre a limpeza árdua da casa. Contou-me sobre a vida e sobre os modos de como se viver. Seu ônibus não demorou e então ela se foi, do modo como anjos devem fazer. Era muito doce, não havia qualquer ansiedade, apenas paciência. Serenidade.

Ela me acalmou de tal maneira que nem consigo descrever, e eu nem estava agitado. A conclusão de que ela era um anjo é ininteligível, eu apenas soube e ela simplesmente era.

Nunca mais a verei. Talvez nunca mais veja anjos. Talvez eles não existam para muitos, mas ela possuía coração. E os olhos mais bonitos que já vi.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Maior idade.


Eu bem poderia dizer que não muda nada, mas é uma data e leis que agora são aplicadas a mim. Esta data, mesmo que mecânica e imutável, demarca sim, todo o meu crescimento ou regressão; assim como as linhas da minha face e todas as cicatrizes e machucados que tive. É tudo o que me possibilita adentrar para a 'maior idade'. É a justificativa para todas leis e ordens que a partir de hoje também se direcionam a mim. Não sou mais intransponível, impune.

As vantagens que me são asseguradas, para não tornar o todo tão ruim, para mim de nada valem. Pilotar um veículo automotivo não faz de ninguém melhor ou pior, tampouco independente (sem postos de gasolina ou mecânicos, continua-se dependente das próprias pernas, como todos os outros). Pequenos erros e distrações também podem ser mortais sob esta perspectiva, mas é isto o que a maioria deseja: tornar-se mais imponente, mais perigoso. Então regam o volante com bebidas, para diminuir o medo, a própria segurança instintiva. "O homem se engana tanto".

Existe um outro lado, um lado seguro. Tornar-me doador por própria vontade, ajudar a salvar, ao invés de incutir mais perigo ao mundo. Pode parecer heroísmo romântico, mas não é mais do que obrigação - com o futuro e pela possibilidade de algum dia precisarmos. Também é egocêntrico pelo fato de sermos frágeis. É uma linha necessária, mas que vive esquecida.

Não, não muda nada realmente. Não muda nada se você não decidir que suas mãos também podem auxiliar. Não muda nada se você continuar só, se somente acrescentar-se a grande parcela. Aos 18, você será apenas mais um adulto respirando no mundo. Mais um motorista emitindo monóxido de carbono nos ares das cidades. Mais um eleitor cego. Não muda nada se você não der um salto mental. Não muda nada se você não mudar.

O mundo é infinito de possibilidades e escolhas, eu não posso impor as minhas sobre ninguém. Hoje sou mais um adulto, e por toda essa carga de responsabilidade social, eu quero fazer jus. Quero provar para mim mesmo, mais do que ao resto, que os anos pelos quais passei trouxeram aprendizado. Que eu posso ser homem no verdadeiro sentido: o da hombridade. Do homem que conhece seus direitos e deveres. Mais do que a lei imposta e mal organizada. Mais do que carros e coisas que eu possa comprar. Mais do que cartões de crédito ou contas em banco. Para aquele que está em um hospital, e nunca saberá quem sou, quem fui, o que fiz ou que carro tenho. Mas que terá sangue meu nas veias. É para ele que eu dedico os meus 18 anos. Minha maior idade.

domingo, 20 de junho de 2010

É que eu quero agradecer e muito pelo fato de poder enxergar. Pelo fato de não viver no escuro e poder ouvir. Pelo fato de apreciar a música e poder cheirar. Por ver, sentir, e ouvir o canto das flores. Mas é que eu não sei bem ao que agradecer, então eu estou naquele estado de glória pura. Da emoção fluida na própria coisa. E eu não posso agradecer a Deus sem criminalizá-lo. Porque também me ocorrem coisas ruins. E se o Deus for mal eu não terei mais limites.

Nunca gostei de religionalizar o Deus, as coisas limitadas me doem e eu nunca entendo muito bem. Não que eu eu tenha chegado a entender o Deus, só pela mutabilidade isso seria impossível. Mas não gosto das responsabilidades do que não pode ser responsável. Neste mundo das sanidades nós não podemos julgar o que não concebemos. E Deus é tão inconcebível como nuvens são.

Olhe, pode parecer fora de questão e Deus não cabe na existência: eu sonho. Enfrento mundos inimagináveis e nunca vi Deus. Talvez só os anjos vejam, ou nem mesmo eles. Eles também não julgam o inconcebível, nós também não os vemos. E essa coisa de não enxergar dói tanto no humano, não enxergar. Então a fé é cega e deus é o escuro.

Por que aliar o divino à luz? E é por isso que é ininteligível. Nestas mentes confusas - e mesmo isto é confuso. E a carne não é clara e não é escura, e o intermediário é sempre sujo. As pessoas tem medo do escuro desde sempre. E quando vencem este medo não possuem mais sanidade.

Oh Deus seja claro na sua sanidade. Oh Deus não se faça na noite, pois mesmo a lua é ludibriante. Não seja o sol pois ele queima. Assim nos céus como na terra. Deus permita-se. Permita-nos.


Nostalgia litúrgica.

sábado, 1 de maio de 2010

O Sopro


Sabe, é que quando nascemos um anjo vêm e sopra-nos algo parecido com a vida - e talvez seja ela mesma - é um ar tão difícil e tão dolorido de se respirar, que a maioria chora. Mas é com esse misto de dor e susto que os dias começam a ser contados.

Então: respirar é viver; e acaba ficando tão banal que a coisa mais importante da vida é esquecida. E todos vão viver outras coisas, respirar outros ares. O que o anjo trouxe é uma coisa tão infinita que custa a acabar, o sopro fica ali para todo o sempre, até quando você for capaz de mantê-lo.

Sopra-se; assopra-se; inspira-se; expira-se; respira-se. IN - OUT. O ar entra e o ar sai. Torna-te todo movimentado compartilhando fragmentos do sopro alheio, da vida de outros anjos e de outras épocas. Respirar e viver são coisas tão universais!

Eu mesmo acho que anjos nem respiram; usam o sopro apenas para voar. Será que quando respiramos estamos voando por dentro? Deve ser por isso que o peito se infla tanto. Aliás, o tórax deve ser uma gaiola para o coração não voar. Justamente o coração que quer tanta liberdade...

Tem gente que nasce meio ao contrário, que os médicos dizem ter 'sopro no coração'. Vai ver que algum anjo privilegiou, e um sopro no coração deve torná-lo um coração de anjo. Dois sopros para uma pessoa só parecem algo insustentável. Então às vezes essas pessoas perdem o sopro da vida e ficam só com o do coração. Talvez tornem-se anjos, pois o coração já possuíam.

Dói tanto para nascer e respirar, que para morrer dói mais ainda. Respirar é tão maravilhoso que a gente nem imagina; só quando não respira mais.

sábado, 10 de abril de 2010

As Horas


Em todos os nossos atos vemos refletidos o passar das horas, isto é o que fica; é o que antecede, precede cada acontecimento. Já quando amanhece, então acordamos, as horas passam. Chega o almoço, digestão, passam - se mais horas. Jantar, horas, sono.

Bom para quem tem muitos afazeres, uma grande quantidade de horas muitas vezes não é suficiente. O tempo passa depressa e então só existe o cansaço e o sono pode ser profundo, assim é que pode - se viver. E o que aconteceria para alguém que somente pudesse ver as horas passarem? Que não pudesse aproveitá - las? Que visse os dias, os momentos, sua vida, tudo passando e não conseguisse fazer absolutamente nada? Certamente morreria. De tristeza.

Quase uma ironia do destino, que aqueles que mais pudessem aproveitar as horas com o que realmente gostariam de fazer, não o façam. São infelizes. Alguém que tenha tempo livre é infeliz. Não existe preenchimento que seja útil. E qualquer um, por mais interessante que possa parecer passa. E a vida também passa.

E sobre passagens, indas e vindas, eu me recordo de ônibus, trens, carros. Neles também são passadas muitas horas, muitas vezes improdutivas. Passa - se quase uma vida, dirigindo ou sendo dirigido, e nem ao menos sente - se o vento, a chuva. Sempre para - se nos mesmos pontos, da vida rotineira, do lugar para onde precisamos ir - não e de maneira alguma para onde queremos. O bom é que respirar não gasta tempo, senão estaríamos perdidos, mortos e velhos de vez.

Por isso mesmo que as pessoas sempre ressaltam: aproveite o seu tempo. Não deixe as horas passarem para sempre, viva - as. Cada minuto, segundo, "remelexo" do ponteiro. Passar horas é muito mais divertido do que deixá - las passar. Depois não diga: 'ah, minha vida passou!'. Passou e você nem viu, sua vida passou e você foi cego. Não, não deixe que isso aconteça com você. Não reclame do tic-tac, siga - o. O movimento é horário. Aprenda a reger as horas.

FOTO: JULIANA SORATI - Five 'n something

quinta-feira, 1 de abril de 2010

No escuro




A tarde caiu, o sol se pôs. Não acendi as luzes, continuo meus passos no escuro; percorro corredores sob o sol de uma música melancólica e inebriante. Eu já estou tão cansado de brincar. Gostaria de ter razões para continuar, me parece tudo tão tranqüilo que eu tenho medo de parar de respirar e nem ao menos perceber.

Justamente eu, que sempre quis um pouco de espaço, agora tudo parece tão espaçoso que nem as flores florescem mais. Bem, eu poderia começar do começo, mas me faltam folhas e sementes. Tudo me parece tão amável ao redor de onde me encontro, mesmo assim eu enxergo fronteiras. Acho que não poderia existir do outro lado.

Sinto cheiro de queimado, algo foi destruído - certifico - me de que não sou eu mesmo, graças a Deus eu ainda tenho sentidos! - não existira problema se eu chorasse, não tem ninguém olhando. Mas eu estou tão cansado que as minhas pálpebras doem, e o meu coração sofrega.

Eu estou tão cansado que continuo no escuro, não acenderei as luzes, a noite cairá. Então serei tomado pelas trevas, mas eu não desapareço, depois virá a luz e eu continuarei aqui. Apenas gostaria de ser alguém, para ficar marcado, para existir por mais tempo... Eu tenho espaço demais e pouco tempo. Percorro os corredores, discorro a vida.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sou e não sou.


Sou superpoderoso, tenho minha própria consciência de tudo o que poderia fazer, tenho todos os sentidos e membros funcionando corretamente. Posso fazer coisas que talvez outros não possam, eu respiro sozinho, falo, ando, enxergo e sinto. Não, não sou. Uma bala poderia atingir - me a cabeça e então eu seria mais frágil do que um fragmento de metal. Então eu não seria nada.

Sou feito de carne, ossos, carbono (?). Do que é palpável e do que não é, ininteligível e compreensível. Paradoxalmente humano. Poderia se o que quisesse, sou regido pelo tempo. Minhas pernas são feitas para caminhadas, mesmo em caminhos inexistentes e desconhecidos. Nascer foi um desafio. Mas então, um carro poderia me atropelar e reduzir os meus músculos, tendões e cartilagens a fragmentos de cálcio partido, montes de sangue e entranhas. Eu não seria nada mais do que um corpo, um sopro.

A alma, dizem, jamais poderia ser enclausurada, o espírito é livre. O meu cérebro é incognitível, mas eu poderia ter alzheimer ou sofrer um derrame. A vida poderia seguir maravilhosa, ou terminar agora mesmo. Será que um pensamento me guiaria realmente ao infinito. Não sei.

Nas palavras de Cecília Meireles: - espero a minha própria vinda.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

That tonight is gonna be a goodnight ;)




















Eu não tive nenhum pressentimento não, foram sensações reais. Uma sexta feira que demarcou a grande importância que os meus amigos de 3 anos tiveram para mim. O espaço que cada um deixará gravado dentro do meu coração. Foi uma noite intensa e imensamente divertida, perfomances nunca antes imagináveis por estudantes e professores, antes eu imaginava, comportados.

Foi um rito de passagem de cada um para o que seremos daqui em diante, para a nossa vida quase adulta e todas as decisões que fazem parte da mesma. Então há 12 anos atrás eu não imaginava que seria com essa imensa felicidade que eu abriria as portas para a minha vida que enfim começa, para os passos que terei de trilhar sozinho. Acredito que nem um de nós nunca imaginou que a vida poderia começar apenas com bom humor.

E é para todos esses que eu amo imensamente que desejo boa sorte, encontrem seus próprios lugares.

domingo, 1 de novembro de 2009

Dabke's Class


Os olhos míopes do observador que sou vivenciam todos os dias experiências diferentes. Desta vez foi em um domingo fervente de verão, uma tarde que se mostrou bastante proveitosa e diferente. O convite inusitado de um amigo me trouxe algumas novas versões de mim mesmo.

A começar pelo lugar: paredes de um laranja energizante; um ' Tutancâmon ' sobre um bebedouro e almofadas em frente a um espelho. Ísis e Hórus guardavam as costas da dança. A música? Era deliciosamente delirante. Muitas das quais eu nunca havia ouvido, mas que com certeza me conquistaram...

Eu descobri que a sensualidade pode existir sem se tornar vulgar, e que corpos perfeitos nem sempre são bem definidos. Independentemente de suas limitações físicas você pode ser o auge em uma dança do espírito. Aquele era o mundo dos 'diferentes'. Diferentes até mesmo dos próprios diferentes, que terminam por tornar - se iguais - estes não. Não poderiam classificar - se como comuns e nem mesmo agrupar - se em grupos. Eram templos, na dança e no movimento.

A professora sorria tanto quanto respirava, seu corpo exalava a dança. Seu sangue pulsava e sua saia tremelicava, aquele era um barulho de vida. Começo a perceber o quanto as mulheres são poderosas. Ela era toda resignada, mesmo os seus olhos impungiam força e leveza. Era paradoxal e sublimava diante de um espelho - não era a única, estava com outras mulheres. Cada uma tinha o seu charme e dom próprios. Umas mais aplicadas outras mais vulneráveis. Mesmo a delicadeza tem um poder mortal.

Os pés batiam forte no chão, algumas danças tinham a companhia dos homens. Eu não dancei, ainda não sei. Algum dia saberei, apenas não era meu momento. Estavam todos unidos, de mãos dadas. Os corpos suavam em harmonia, não se tem nojo de um Primo (é como se chamam). E isto também faz parte da sintonia. Este é o belo do movimento: a união.

No Dabke, a antiga dança dos soldados árabes, não importa a sua mobilidade física ou sua desenvoltura corporal. Elas podem até ajudar, mas a alegria e a vontade são realmente a essência. Meus olhos brilharam durante as 2 horas que assisti da aula; as palmas marcaram alguns compassos. Espero adentrar essa família. E aprender a dizer bem forte: AYUUAAAA!