São todas sensações, ilegítimas ou não, compartilhadas ou não, muitas vezes nem minhas são.
sábado, 16 de abril de 2011
Seria um anjo se pudesse.
sábado, 26 de março de 2011
Blessed be.

Foto: Louise-Bourgeois fotografada por Annie-Leibovitz.
A borboleta confundia-se nos cabelos brancos, branco puríssimo que era, como que dizendo ‘Deus te abençoe!’... E como ele tem abençoado, tem abençoado a velhinha por quase oitenta anos, permitindo que continue andando, mesmo com pernas quase inexistentes, magérrima que é.
Ia ela se curvando, na saída de um açougue, fechando-se como uma flor em botão, corcunda que era, ‘inflorescendo’, e foi então que a borboleta reconhecera-a, abençoando-lhe. Andando no processo contrário da flor ela caminha para uma eternidade desconhecida, ou talvez, inexistente. Mas nós sabemos o que lhe ocorreria: faria parte da terra, como outras flores. E talvez por isso se fechasse em botão.
A pureza do branco, da borboleta branca, do cabelo branco... Todo um preparo para o futuro certo, certamente. A benção divina ficaria então para o próximo florescimento - o onisciente.
Mas ela estava perdendo o perfume, ou melhor, guardando-o. O cheiro dos cemitérios, vou segredar-lhes, é o dos botões que ainda irão brotar, são perfumes guardados por séculos. Existem muitas borboletas por lá.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Está um pouco nublado.

‘Eu disse a ele que me sentia uma garota cega na janela. Acho que eu sempre vou querer vê-lo de longe, mas eu não vou poder olhar porque isso me doeria muito. E eu sempre vou desejar o melhor a ele, e eu não pretendo amá-lo para sempre, mas por enquanto eu o amo, e por enquanto eu observo de longe sem ver.' K.T.
É que, bem, eu nem mesmo queria, e disse isso a ele... Seria tão mais fácil culpá-lo pela insistência, do modo como me culpo agora por ter cedido. Estava vazia, incompleta, sim, mas norteada, direcionada; ele não tinha nada que...
O que acontece é que agora não adianta mais, estou cega e presa. Presa dentro dos limites possíveis que não me permitem agir e comandar de acordo com a minha vontade; e ainda que ele fosse mal, que fosse hipócrita - eu poderia mandar prendê-lo. Mas ele não é ! O que torna todo o mal já feito em erros e ‘impretensões’ de minha parte. Sinto dizer-lhe, mas mulheres jamais podem ser culpadas.
Por Deus, eu havia me exorcizado tantas vezes por pecados alheios que nem me é possível contabilizá-los novamente; houve tanta dor lasciva e mal formada de amor adolescente, porém, agora eu sou mulher e então dói mais. Dói como fracasso pessoal e perda financeira. Coração não se refaz assim do zero, então vou lhe contar a história da menina que morava dentro dele, quem sabe assim acabo reconstruindo-o:
‘Ela havia nascido um pouco cega, não havia muito espaço para o próprio crescimento, o lugar era bastante apertado e ao invés de se expandir, regredia cada vez mais, se apertando em dor de medo, e a menina ia sofrendo. Como era pequenina, na primeira expansão já se foi correndo, ingênua, ia crescendo e enxergando cada vez mais – os olhos, mal acostumados, iam míopes e ela acabou sofrendo grande queda, machucou-se, doeu muito. O lugar de nascimento regrediu um pouco, mas não havia muito que fazer: a primeira e grande expansão é para sempre, algumas paredes se quebram, sempre dói, mas é para sempre. Então, a menina pequenina se aquietou, viveu sua nova vida, sob as perspectivas de sua nova expansão, reconstruindo e construindo tudo aos poucos, focada. Foco também incide em um pouco de cegueira, é como olhar sem ver, deste modo, porém, as coisas poderiam continuar, o que se encaixa dentro do conceito de bom e permitido.
Permissão?! Não, nunca houve permissão, esse lugar onde a pequenina morava vivia meio aberto e meio fechado, em uma convulsão de sístoles e diástoles, ao que ela sobrevivia... A última vez que aconteceu tornou as coisas piores, ela, já calejada, correu com maior obstinação, no puro risco de se perder, mas coexistindo com a fé, o que por si só era a segurança. Correu tanto, mas por pouco tempo, dessa vez nem caiu, estancaram-na; não lhe deixaram continuar o caminho que seus pés queriam traçar. O caminho veio e ela o havia escolhido, estava pronta, mas desta vez não lhe permitiram.
Ela voltou sozinha, desta vez, vagarosamente, com olhar baixo, para o chão. As janelas do lugar se embaçaram todas, não havia como comprimir. Ela queria continuar olhando para o caminho que havia escolhido que não mais lhe pertencia, então ela não poderia enxergar. Nunca podemos enxergar aquilo que não é nosso, os olhos querem capturar, como fotografias, e fica como algo inexistente, esperança esfumaçada. Então a menina ficou cega de vez, cega de ‘inesperança’, cega de não pertencer. Continua vivendo, sim, não se sabe até quando... Ela guardou o caminho em algum lugar, mesmo sem enxergá-lo, da próxima vez será necessário desmatar muito mais e gerar uma nova trilha, a cada vez ela aprende a enxergar novamente, mesmo cega, enxerga com seu próprio corpo e vontade, afinal, depois de algumas vezes não precisamos mais dos olhos.’
- Poderia parar no próximo ponto, por favor? Está um pouco nublado, daqui eu não posso enxergar muito bem...
sábado, 1 de janeiro de 2011
Mme. Okada

quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Bolo de festa

Ela chegou em casa e descalçou os sapatos. Foi até o aparelho de som e colocou o Cd que nunca ouvia - era triste demais. Deitou-se na cama e fechou os olhos, brevemente...
As pálpebras tornaram-se pétalas, ela começou a flutuar em um rio cristalino de planície, não havia som algum... Passara muito tempo flutuando... Quando, de repente, afundou, sem se afogar, naquele desespero resignado de perder-se; sem dor, indo mais e mais fundo. O Cd acabou.
Levantou-se, mecânica - não era dor o que sentia, era uma espécie de constrangimento por não pertencer - não desejava se libertar, a grande verdade é que não era direito seu. Não era importante, e para os anônimos o destino é sempre comum.
Caminhou pela casa em passos leves, sem intensão. A crueldade só se enquadra quando existe aflição e dor; dor não havia. Piscou vagarosamente e procurou não pensar. Ligou o Cd novamente e foi para a cozinha - ladrilhos da cor laranja que ela mesma escolhera para dar vida ao ambiente - resolveu preparar um bolo, branco, de festa.
Preparou-o, sem ímpeto algum de cozinheira, por mais mãe e esposa que fosse. Colocara o mínimo de açúcar possível, somente o cheiro deveria ser doce. Continuava mecânica. Eram 16 horas e 5 minutos.
Regou as plantas e abriu as portas da varanda - fora o apartamento dos sonhos, quitado no último ano - entrava uma brisa. Sentiu frio.
O Cd terminou novamente, ela desligou o som. O bolo estava assado. Decorou-o e o colocou no refrigerador. Assustou-se um pouco, nunca pertencera à solidão, mas naquele momento era o seu único pertence. Ela se sentiu ausente em sua própria casa, respirava exausta. Apenas o silêncio era bom, foram 40 anos e ela não havia percebido isso.
Entrou no quarto, os chinelos, despreocupadamente, estavam virados para baixo. Adormeceu no silêncio - um longo tempo...
Abriu os olhos, a claridade lhe cegou temporariamente. Ouviu-se um apito agudo e pausado, que manteve certa constante. As pálpebras tornaram-se pétalas e ela submergiu profundamente.
Nunca mais acordou, o bolo de festa nunca foi comido.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Janelas.

Ela acreditava que os outros deveriam olhar mais pela janela, sem se perguntar e nem saber porquê. A ideia era consistente e ela pregava aquilo como se tratasse de uma religião. E para dizer bem, era verdade, acabava consistindo em uma revolução de valores, tal qual as religiões são.
Janelas sempre possibilitam atividades diversas: desde a limpeza dos vidros até o suicídio. Chegara mesmo a ouvir sobre santas que apareceram em janelas - o que reforçava sua tese. São mais interessantes do que portas, por exemplo, até por não exigirem permissão, afinal, não existe a necessidade caseira de se sair ou entrar, pode-se participar de janelas sem pertencê-las ou pertencer a elas.
Detestava defenestradores; achava um crime que se atirassem coisas pelas janelas, se bem que tivesse atirado flores algumas vezes... Mas isso era divertido, então nem contava. Jogar lixo é que era ruim, era maldade que muita gente fazia.
Vivia pensando sobre a origem etimológica da palavra - JANELA - mas não procurava em dicionários, eram frustrantes e estragavam a linha do pensamento. Até que depois de muito pensar chegou à uma conclusão que lhe pareceu lógica: Janela = jante com ela, ou nela. E ainda que a ideia tivesse vindo de um comercial antigo da Coca-Cola era irrefutável, afinal, bons fregueses sempre escolhem mesas na janela e família que é família sempre faz suas refeições perto de uma.
Seu grande sonho era morar em uma casa onde existissem apenas janelas, para sentir-se liberta e encontrar seu lugar no mundo... ------------ sua mãe já lhe cortou a ideia:
- Meninaaaa! Pare de besteiras e vá dormir logo! E feche esta janela, está frio!
Acontece que criança só se aquieta momentaneamente, pois continua remoendo o pensamento, e a menina guardou o sonho. Ela reabriria a janela no dia seguinte, e nos dias seguintes até o fim dos tempos em que se pudessem abrir janelas. Novamente, novamente e novamente.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Sobre os anjos que não possuem asas.
Deve ter começado com uma pergunta inóqua, algo sobre o tempo ou sobre a demora dos ônibus... E ela começou a me contar parte de sua vida, chamava-se Ermelinda. Na primeira pausa já anunciei meu espanto: ela possuía olhos com cores diferentes, um era azul e o outro cor de mel. Das características exóticas que anjos precisam ter para que saibamos que são anjos.
Conversamos ainda algum tempo, ela me contou sobre sua família, sobre sua neta que tanto amava, sobre sua filha, sobre a limpeza árdua da casa. Contou-me sobre a vida e sobre os modos de como se viver. Seu ônibus não demorou e então ela se foi, do modo como anjos devem fazer. Era muito doce, não havia qualquer ansiedade, apenas paciência. Serenidade.
Ela me acalmou de tal maneira que nem consigo descrever, e eu nem estava agitado. A conclusão de que ela era um anjo é ininteligível, eu apenas soube e ela simplesmente era.
Nunca mais a verei. Talvez nunca mais veja anjos. Talvez eles não existam para muitos, mas ela possuía coração. E os olhos mais bonitos que já vi.